Das dores que senti, você foi a mais doída.

Cheguei a pensar que fosse o remédio,

mas despertei: era veneno —

um veneno doce, inebriante.

 

Eu me anestesiei para a vida

e caminhei dopada, como quem nada sente.

Apenas um incômodo silencioso, persistente,

um aperto no peito sussurrando:

tira o acesso, vai embora.

 

Era como um ataque no sistema nervoso,

implorando para fugir.

Mas a falsa ideia de cura

me prendeu, e eu fiquei —

aceitando mais uma dose daquele veneno

que quase me matou.

 

Mas, em um dos seus silêncios ensurdecedores,

arranquei os acessos

e corri.

Sangrei.

 

Sangrei tanto que pensei

que não teria forças para continuar.

 

Mas continuei.

Eu sobrevivi.